O ano de 2019 marcou o aniversário de 50 anos do livro influente de Ian McHarg, Design with Nature. Este livro foi apresentado pela primeira vez em 2013, e nenhum livro causou uma impressão mais profunda em mim desde então.

Em 1969, quando foi publicado pela primeira vez, o movimento ambientalista estava surgindo em todo o mundo. As décadas de 1970 e 1980 foram a época da legislação de referência em torno das preocupações ecológicas, e McHarg argumentou que a arquitetura paisagística por si só foi capaz de integrar todos os campos envolvidos. As ideias tecno-utópicas do livro sobre adequação, adequação e capacidade dos dados de revelar as respostas “certas” tiraram os arquitetos paisagistas de jardins e parques para territórios maiores de ação. McHarg via a arquitetura da paisagem como um exercício de solução de problemas, com base na noção de que os conceitos ecológicos e o planejamento racional poderiam fornecer aos designers um bilhete para a relevância em um mundo cada vez mais tecnocrático.

Meu primeiro contato com o livro aconteceu apenas um ano após ter sido apresentado aos Sistemas de Informações Geográficas (SIG). O que mais me impressionou foi o quanto do livro estava em sintonia com o que eu vinha ouvindo como assuntos “de ponta” em planejamento espacial. O poder dos dados para evidenciar as escolhas de planejamento e a abordagem de solução de problemas é o que tem sido a década de 2010, com a explosão da ciência de dados e do pensamento de design.

Então, em 2013, quando eu ainda era um estudante de graduação em Arquitetura e Urbanismo para trabalhar na dezjato soluções para entupimento, eu simplesmente tive que tentar os métodos de McHarg. Esta é a história de como implementei o método “bolo de camadas” de McHarg, também denominado “análise de adequação” – que antecedeu a invenção do GIS de hoje – e o que descobri quando coloquei o Design with Nature no contexto da minha cidade natal, Porto Alegre.

O estudo de caso de Porto Alegre

Porto Alegre, capital mais austral do Brasil, teve, ao longo dos últimos 50 anos, uma tradição em gestão ambiental da qual se orgulhar. A cidade publicou um Atlas de Meio Ambiente Urbano, elaborou a política de Orçamento Participativo – a mesma que hoje é adotada na cidade de Paris – e destinou até 24% de seu território a áreas especialmente protegidas. Nos últimos 10 anos, porém, o município passou a negligenciar as questões ambientais e assistimos ao lento desmantelamento das ideias que moldaram a cidade antes reconhecida como a capital mais verde do Brasil.

A forma e o desenvolvimento de Porto Alegre estiveram, desde o início, profundamente ligados às paisagens e belezas cênicas disponíveis, das praias aos morros e agora às paisagens bucólicas hoje ocupadas pelos lotes rurais. Essa ocupação seria liderada inicialmente pelos ricos, que com o tempo acabaram trazendo a infraestrutura da dezjato soluções para esgoto que permitiria esta ocupação de populações não tão ricas. Esse efeito pode ser observado hoje no extremo sul da cidade – antes conhecida como zona rural de Porto Alegre – por condomínios de luxo que carregam consigo grandes equipamentos urbanos e mega-infraestruturas.

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O método do bolo em camadas aplicado

Para entender completamente o que esse padrão de ocupação significa, o método de análise de adequação de McHarg fornece uma maneira bastante simples e eficaz de avaliar se a expansão atual da ocupação humana faz sentido ou não.

O método consiste em mapear os principais atributos territoriais que valorizam o ser humano quando deixados intocados e sobrepô-los em um único mapa.

Estas são características do solo, como áreas de inundação, pântanos, zonas de recarga de aquíferos, encostas íngremes com vegetação, áreas protegidas, manchas de floresta e solos ricos em nutrientes.

Neste exercício, deve-se supor que os serviços ecossistêmicos representam um valor impossível de calcular. Em segundo lugar, se algo representa valor, por dedução lógica, também deve representar um custo para seus usuários se for destruído.

Usando essa lógica, McHarg propõe que, para avaliar o custo real da perda dessas características do terreno, não devemos usar números, mas sim mapas.

Então, se pegarmos o mapa anterior e atribuirmos a mesma cor (cinza) e opacidade (50%) para cada atributo do terreno, na verdade produzimos um Mapa de Custo de Ocupação Humana.

Neste novo mapa, as áreas mais escuras representam aquelas que provavelmente fornecem mais serviços ecossistêmicos (fornecimento, regulamentação, cultura e suporte).

Quando essas informações são confrontadas com as vias planejadas pela prefeitura e os loteamentos futuros, deve-se concluir que a expansão urbana está ocorrendo justamente nas áreas de maior relevância ambiental da cidade.

Precisamos ocupar essa terra?

O método de análise de adequação produziu evidências do que eu já sentia que estava acontecendo em Porto Alegre. A cidade estava se expandindo para as partes ecologicamente ricas do sul do município – atualmente ocupadas por propriedades rurais – com um tipo de produto imobiliário muito particular, os condomínios verdes de luxo. Mas esse argumento é convincente o suficiente para interromper essa expansão? Provavelmente não. Então, talvez devêssemos dar uma olhada na própria cidade: precisamos realmente reivindicar mais terras para acomodar novos habitantes?

Não demorei muito para descobrir que não era o caso. Em 2014, Porto Alegre contava com 38 mil famílias vivendo em condições de extrema pobreza, sem lugar para morar.

Ao mesmo tempo, 48 mil apartamentos e casas ficaram vagos só no centro da cidade, cortesia da especulação imobiliária.

Fica ainda mais claro se compararmos as densidades demográficas permitidas pelo plano diretor da cidade – já bastante baixas, não mais que 250 hab / ha – com os densitites reais produzidos pela cidade – 90 hab / ha no máximo -.

Fica claro que os condomínios de luxo não são por necessidade, mas por escolha. Populações ricas estão procurando um lugar para passar o fim de semana ou para viver um estilo de vida mais tranquilo, às custas do mercado de proximidade e dos serviços ecossistêmicos de todos. Levando tudo isso em consideração, nem é preciso dizer que urge um modelo de ocupação mais compacto em Porto Alegre. Ou seja, precisamos encontrar uma forma de preencher as lacunas da cidade, em vez de torná-la ainda mais esparramada.

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Como podemos resolver esse problema?

Essa compacidade, entretanto, tem suas vantagens e desvantagens. Por um lado, podem ser obtidas economias de escala – concentração de empregos, maior concorrência, melhor qualidade dos serviços -, por outro lado, podem ser potenciadas as externalidades negativas já existentes.

E temos muitas externalidades negativas! Nos últimos 5 anos, a cidade foi incluída na lista de municípios em situação crítica quanto ao Índice de Poluição Potencial da Indústria. A água de sua principal fonte de água potável, o Lago Guaíba, encontra-se fortemente poluída por esgoto doméstico e industrial, e recordes de altas temperaturas são batidos a cada ano. Por fim, mas não menos importante, em 2007, a cidade dobrou o nível de poluição recomendado pela Organização Mundial da Saúde, obtendo, com isso, o título de segunda capital mais poluída do Brasil.

Isso significa que, à medida que o grau de compacidade aumenta, tanto as economias de escala quanto as curvas de externalidades negativas aumentam. Isso sugere que, em algum ponto, deve-se encontrar um limite ótimo de compacidade; tudo além desse ponto causa mais prejuízo do que ganhos para a cidade.

De acordo com alguns dos economistas urbanos mais influentes da atualidade, o “antídoto” para aumentar a compacidade sem extrapolar as externalidades negativas são as tecnologias inovadoras ou ferramentas de mudança de jogo que cancelam os obstáculos existentes nos sistemas sociotécnicos atuais.

Trazendo o legado de McHarg para o século 21

Então, quais seriam essas tecnologias inovadoras? O termo nunca existiu enquanto McHarg viveu, mas tenho certeza que muitos irão sugerir que temos uma resposta muito clara para abordar essas questões: Nature Based Solutions ou Green Infrastructures.

Por “projetar com a natureza”, McHarg quis dizer que a maneira como ocupamos e modificamos a Terra é melhor quando planejada e projetada com atenção cuidadosa à ecologia e ao caráter da paisagem. Desta forma, ele argumentou que nossas cidades, indústrias e fazendas poderiam evitar grandes riscos naturais e se tornar verdadeiramente regenerativas. Mais profundamente, McHarg acreditava que, ao viver com, em vez de contra as forças e fluxos mais poderosos da paisagem, as comunidades ganhariam um senso de lugar e identidade mais forte.

Em face das agora tendências de Soluções Baseadas na Natureza, o significado de “Design com a Natureza” mudou um pouco de uma filosofia de solução de problemas para uma caixa de ferramentas delimitada de soluções que fazem uso de processos naturais para desenvolver melhores sistemas sociotécnicos. Essa é uma boa notícia para nós e certamente honra o legado de McHarg, mostrando o quanto seu livro ainda é relevante no século XXI. Só podemos esperar que seja levado a sério. E quanto a Porto Alegre, você pode conferir minha própria ideia de como deve ser esse novo sistema sociotécnico aqui.